Hedwig vem te pegar!


Ela nasceu no cenário underground e off-Broadway em Nova York e, recentemente, ganhou espaço na Broadway, causando furor por onde passou. E agora, a dama do rock n’ roll, a compositora internacionalmente ignorada Hedwig está prestes a ganhar cara nova na releitura musical Hedwig Rock Show, da Cia. De Teatro Lusco-Fusco, que estreia ainda no primeiro semestre de 2015. Baseada no texto original “Hedwig And The Angry Inch”, de John Cameron Mitchell, e nas músicas compostas por Stephen Trask, o espetáculo conta a epopeia da transexual Hedwig, uma alemã nascida na época da separação da Alemanha pelo Muro de Berlim e que segue para os Estado Unidos buscando o sonho de se transformar em uma rockstar.

Hedwig vêm aí - foto 1 - crédito Jess Tomasi (baixa).png

A equipe artística de "Hedwig Rock Show": Paula de Castro, Dannilo Autorino, Marco De Laet, Beatriz Príncipe, Gustavo Dittrichi, Luan Alcântara, João Said e Luiz Locci.

A montagem, que não tem fins lucrativos e serve como instrumento de pesquisa dos artistas integrantes, segue uma linha de estudo e desenvolvimento artístico que a Cia. Lusco-fusco vem seguindo desde 2011: primeiro, com a releitura musical de “O Despertar da Primavera”, da obra de Frank Wedekind; e depois com “Hair”, o musical hippie da década de 70; ambos ganhando “a cara” da companhia, sendo seus instrumentos de pesquisa nas linguagens teatral e musical.

“A Hedwig é praticamente uma entidade por si só”, explica Gustavo Dittrichi, que interpretará a transexual e idealizou o projeto. “Ela tem muita força, é um símbolo para os que conhecem o espetáculo e, portanto, uma personagem muito difícil. Quando ensaiamos, percebo que ela chega com uma força própria, que já está embutida no texto, e eu preciso dar conta desta força”. O espetáculo nasceu do desejo de Gustavo de viver esta experiência; e ganhou contornos mais definidos com a entrada do diretor Dannilo Autorino; convidado especialmente para fazer a direção de atores do espetáculo.

“Os atores e músicos são talentosos, abertos, e demonstram muito amor e vontade para realizar esse projeto”, conta Dannilo, o diretor. “Todos esses atributos contribuem muito para o meu papel de diretor e também para um resultado satisfatório na peça. Creio que o nosso maior desafio seja contar uma história com uma dramaturgia que, no original, é quase um monólogo”. Isso porque, na versão original e da Broadway, só existem dois atores em cena: o ator que interpreta a Hedwig também faz o personagem Tommy Gnosis; enquanto uma atriz interpreta o Yitzhak. Na montagem do Lusco-Fusco, para dar mais dinamismo e tornar o espetáculo mais “coletivo” e menos “monólogo”, o personagem Tommy Gnosis foi incluído; e parte dos diálogos de Hedwig viraram cenas ou foram divididas entre os atores.

“‘Hedwig Rock Show’ é um musical diferente de tudo o que pode ser visto em cartaz por aí”, diz João Said, que interpreta Tommy Gnosis. “Têm uma ‘pegada’ totalmente rock n' roll e mostra sentimentos e sensações muito intensos. Fazer parte desse projeto é uma oportunidade ímpar na minha trajetória pelos palcos. O texto é divertidíssimo, tem um humor ácido que instiga e as músicas são incríveis”.

“Tenho certeza que essa nova proposta vai me fazer crescer, ainda mais se tratando de uma proposta ousada como ‘Hedwig’”, diz Paula de Castro, que já trabalha com a Cia. Lusco-Fusco e, recentemente, fez o papel de Dionne no musical “HAIR”. Para ela, a troca com os colegas no palco e as descobertas das nuances dos personagens são o ponto alto do trabalho até agora. “Agradeço antecipadamente pelo que cada um deles está oferecendo, pois sem essa ‘química’, seria impossível. A paciência e doação de cada um é sem dúvida o ponto mais importante para que isso possa estar acontecendo”.

Hedwig vêm aí - foto 5 - crédito Jess Tomasi (baixa).png

Elenco de Hedwig em intervalo de ensaio: Paula de Castro, Gustavo Dittrichi e João Said.

Rock n’ roll pra temperar

A paixão pelo rock n’ roll é essencial para a música de o espetáculo acontecer. Quem garante é o diretor musical, Marco de Laet. “Felizmente, temos uma equipe maravilhosa, esforçada, empolgada com o trabalho. A alegria, o compromisso e amor pela música é nossa marca. Não há o que dizer contra quando temos entre nós apenas pessoas compromissadas com o trabalho e felizes pelo que está sendo feito. Deste modo, conseguimos fazer com que os ensaios sejam sempre produtivos. O fato das músicas de Hedwig serem em um estilo musical que todos temos preferência, também ajuda para cifra-las e criar os arranjos, pois não é cansativo, estamos fazendo o que realmente gostamos e nos divertindo com isso”.

Hedwig vêm aí - foto 4 - crédito Jess Tomasi (baixa).png

Beatriz Príncipe e Marco De Laet em ensaio.

Mas os músicos enfrentam não só o desafio de recriar musicalmente o espetáculo, mas também de estarem inseridos nas cenas – o que exige que eles se tornem um pouco atores. “As músicas são relativamente fáceis, com arranjos bem punk rock, rock'n roll, e a sinergia entre a banda está indo muito bem. A grande dificuldade da peça é o fato de fazermos parte da cena todo tempo e ter que interagir com ela”, conta o guitarrista Luiz Locci.

Hedwig vêm aí - foto 2 - crédito Jess Tomasi (baixa).png

Rock n' roll: Luiz Locci em ensaio.

Mas se depender de boa vontade, o show deverá ser explosivo. “Sinto um prazer enorme, a música corre em minhas veias”, diz Luan Alcântara, baterista. “Estar no meio artístico é gratificante, o trabalho é complexo e exige muito amor e dedicação de todos, e é o que todos queremos”. Beatriz Santiago Príncipe, que também já trabalhou com a cia. em Hair, como atriz, agora empresta seus talentos musicais como tecladista do espetáculo. “Fico feliz em ver que com meu treinamento quase diário, consigo dar conta das músicas. Espero fazer um bom trabalho e esforço de minha parte não faltará. Estou realmente comprometida para que dê tudo certo”.

Hedwig vêm aí - foto 3 - crédito Jess Tomasi (baixa).png

A 'batera' de Luan Alcântara.

A Hedwig original

A história original baseia-se nas experiências de John Cameron Mitchell, filho de um general do exército americano, que comandou um setor de ocupação americana em Berlim Ocidental. A personagem título foi inspirada por uma mulher alemã, divorciada de um militar americano, que trabalhou como babá para a família de Mitchell, mas também era prostituta no trailer onde morava, em Junction City, Kansas. A música foi influenciada especialmente pelo estilo glam rock de David Bowie, mas buscou também inspiração no trabalho de John Lennon e pelo punk de Lou Reed e Iggy Pop. Estreou em 1998, no cenário underground de Nova York, e logo ganhou o público e a crítica. A versão original (bem como sua contraparte cinematográfica), contam com o criador John Cameron Mitchell como a protagonista Hedwig (uma interpretação que seria considerada emblemática), e com o compositor Stephen Trask na banda original do espetáculo. Mitchell voltou, mais tarde, aos palcos para reviver a Hedwig (sucedendo três nomes de peso: Neil Patrick Harris, Andrew Rannells e Michael C. Hall), no início de 2015, agora nos palcos da Broadway, causando comoção no público, e inclusive estendendo sua temporada.

Uma história que vale a pena ser contada

Hedwig é uma história, no final das contas, universal. O mundo abordado pode ser completamente diferente para muitas pessoas, mas o espetáculo trata de desejos inerentes a qualquer ser-humano, como a busca pelo seu lugar no mundo e pelo amor.

“É uma história que vale a pena ser mostrada”, diz Dannilo, o diretor. “Espero que o público participe dessa reunião que propomos. Pois, no fundo, o Teatro é só um ponto de encontro onde pessoas se reúnem para compartilharem uma boa história... e onde atores não tem exclusividade; o público também tem extrema participação nos nossos papéis, pois é através da troca que passamos a refletir e gerar mudança no outro, e consequentente, quase sem querer, no mundo”.

Além de interpretar Hedwig, Gustavo Dittrichi também foi responsável pela tradução e adaptação do texto original, pelas versões brasileiras das músicas e pela concepção artística do espetáculo. Dannilo Autorino assume a direção de atores; e Marco de Laet é responsável pela direção musical. No elenco, estão João Said (Tommy Gnosis) e Paula de Castro (Yitzhak); e, na banda, Luiz Locci (guitarra), Luan Alcântara (bateria), Beatriz Santiago Príncipe (teclado e pandeirola) e o próprio diretor musical, Marco De Laet (baixo).

Hedwig estreia ainda no primeiro semestre de 2015, e as datas de espetáculo estarão disponíveis na seção AGENDA.

#hedwig #entrevista

11 visualizações0 comentário